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Novo nome, nova morada, a mesma intenção

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O Casa, Bateria e Baixo mudou de morada, tem novo nome e novo rosto, mas mantém-se a intenção.
Obrigado a todos os que visitaram este cantinho, agora remodelado no Reverb.

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Zé Pedro

sexta-feira, 18 de maio de 2012


«Sabes quem é que conheci hoje? O Zé Pedro, dos Xutos», disse eu à minha irmã, em conversa ao telefone. «A boa energia que ele transmite... é incrível». Ela concordou: «Sim, é essa a ideia que eu tenho dele». De facto, as boas vibrações, quando genuínas, atravessam qualquer meio - seja a televisão, a rádio, o papel impresso ou o disco. Mas quando temos oportunidade de estar na presença de um músico - e de um homem - como o Zé Pedro, o impacto é mil vezes maior.

Essa oportunidade aconteceu no passado dia 16 de Maio, num encontro organizado pela ETIC e moderado por Rui Miguel Abreu. Os moldes da conversa foram definidos logo aos primeiros minutos: enquanto Rui Miguel Abreu pedia aos presentes para se chegarem mais para a frente, Zé Pedro pegou na mesa que fazia de barreira entre "artista convidado" e "público" e afastou-a para o lado, chegando a sua cadeira também para a frente. Neste clima de proximidade, muitas histórias foram contadas: os dias em que começou como jornalista de música, a formação da banda, os altos e baixos num percurso já com 33 anos, até mesmo o nascimento do punk e do grunge.

Mas é da energia deste homem que não me vou esquecer. Zé Pedro sente-se profundamente grato por fazer aquilo que o apaixona e por pertencer à banda mais acarinhada pelos portugueses. Por isso, faz questão de responder pessoalmente ao email de um miúdo de 10 anos, carregado de perguntas para os Xutos. Acredita que a música só faz sentido enquanto processo de dar e receber. «Um músico, quando sobe ao palco, é um fio condutor. Temos de retribuir a energia que estamos a receber do público com o nosso empenho - nem que seja para uma plateia de cinco pessoas. Um artista que não consegue retribuir isso fica tonto, megalómano, egoísta». Acredita que a arte é saudável quando esse fio condutor se liga também a outros artistas - sejam eles músicos, jovens designers ou profissionais de video.

Recorda-se da primeira coisa em que pensou, quando acordou depois da cirurgia: «em 15 dias ponho-me bom e consigo estar no Optimus Alive». E isto embora os médicos estimassem um recobro de 3 semanas. A paixão alimentou-lhe o corpo e deu-lhe alta, a tempo de subir ao palco do Passeio Marítimo de Algés. Trinta mil pessoas a aplaudirem à sua frente, «um baque» e a emoção que o fez chorar, a si e aos seus colegas.

A dada altura, pedi a sua opinião acerca do estado do jornalismo musical em Portugal. Esperava críticas sobre o que não temos. Recebi elogios sobre o que temos. Perante um copo meio vazio, Zé Pedro vê um copo meio cheio. E eu vejo uma lição de vida.

Rui Clemente, Maio de 2012

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Record Store Day @ Flur

sábado, 28 de abril de 2012

Todos os anos, ao terceiro Sábado de Abril, centenas de lojas de discos independentes reúnem-se por todo o mundo, para mostrar que a música vai para além dos ipods e das grandes superfícies comerciais. Mais uma vez, Portugal esteve incluído no cartaz das celebrações do Record Store Day, que se assinalou na semana passada. Estivemos na Flur, onde a música e o carinho dos seus apreciadores fizeram esquecer um dia de céu cinzento.

O desastre foi de tal maneira determinante que Rodrigo nunca mais se esqueceu da data: 31 de Dezembro de 2008. O dia em que, no seu quarto, tropeçou num emaranhado de fios, viu o computador voar em direcção ao chão e, como se não bastasse, pisou o rato. "Sem querer, liguei o 'beat grid' e assustei-me. Comecei a ouvir um som estranho e descontrolado... mas espectacular." Nessa altura, o jovem de 15 anos já fazia experiências de música no seu quarto, por puro gosto. O acidente gerou uma curiosidade ainda maior. Começou a ouvir mais música, a estar mais atento, a frequentar lojas de discos. Uma delas foi a Flur, em Lisboa. Destino de eleição para os amantes da música electrónica e de dança, logo se tornou na sua loja favorita. A razão é simples: "Tem música que não se encontra em mais lado nenhum. É uma loja única."

Quando esteve presente no primeiro Record Store Day em que a Flur participou (em 2009), Rodrigo nem sequer sonhava que o seu nome viesse a fazer parte da programação do mesmo evento, três anos mais tarde. Agora com 18 anos e um brilho nos olhos, mostra-se incrédulo: "É surreal. Não sei o que se está a passar aqui." Com o título S/P, o EP de estreia de Rodrigo Cotrim foi um dos lançamentos exclusivos da Flur no Record Store Day 2012, que decorreu no Sábado, dia 21 de Abril.

Pelo quarto ano consecutivo, o espaço de Santa Apolónia juntou-se às centenas de lojas de discos independentes que, por todo o mundo, celebraram a arte da música. Efectivamente, quem entrou na Flur nesse dia, percebeu que este foi um Sábado atípico: mais pessoas a circular, discos a preços especiais, uma equipa de reportagem da RTP, lançamentos exclusivos (a par do EP de Rodrigo Cotrim, destacou-se a compilação Lisbon Bass) e um programa de concertos.


Pouco depois das 16 horas, enquanto um jovem manejava o gira-discos perscrutando um vinil de música house e um homem se dirigia ao balcão com um CD de Patrick Watson, o interior da loja foi invadido pelo dedilhar da guitarra de Tó Trips. A arte da música passou a manifestar-se em tempo real, na forma de quatro novos temas a solo do ex-Lulu Blind, actual Dead Combo. Ali mesmo, numa loja de discos, à disposição de qualquer um. "Já tive oportunidade de trabalhar com profissionais ligados à música e noto uma grande diferença, em comparação com os das artes performativas", afirmou Margarida Lopes (34 anos), programadora na área da Dança Contemporânea. "Esta diferença está no gosto pela partilha. O pessoal da música não se coloca em primeiro lugar, não há interferências de ego. Sempre que trabalho com eles, é um descanso. Tudo flui. Acho que o Record Store Day é uma excelente oportunidade para vasculhar a loja e aproveitar uma tarde onde tens este espaço magnífico, esta vista magnífica, estas propostas. É um luxo."


Finda a partilha de Tó Trips, com o Tejo ao fundo do corredor, a música saiu lá para fora. Na esplanada do restaurante Bica do Sapato, um palco improvisado acolheu o showcase da editora Cafetra. Rock de garagem, irreverência e uma média de idades que (no palco e em quase metade da audiência) não ultrapassava os 20 anos, tomaram conta do espaço com as actuações dos 100 Leio, Ème, Go Suck A Fuck e Smiley Face. Um banho de sangue novo, com alguns pingos de chuva à mistura, que encerrou com a energia contagiante das Pega Monstro (duas irmãs, guitarra e bateria apenas), à qual ninguém ficou indiferente.


A tarde terminou com um sorriso na expressão dos presentes e a sensação de "missão cumprida" por parte de Zé Moura, um dos responsáveis da Flur. "Não fazia a mínima ideia de como ia correr. Com a dita crise, a cada ano que passa, espero cada vez menos." Fosse a crise ou a ameaça de chuva, é certo que a afluência de pessoas este ano foi significativamente menor. "Mesmo assim", refere Zé Moura, "o dia foi muito bom, quanto a vendas. Melhor do que qualquer Sábado normal. Apesar de não ter vindo muita gente, estou muito satisfeito." Uma satisfação que não dependeu apenas dos números, mas essencialmente do espírito que na sua loja se fez sentir: "Notei que, este ano, houve gente mais interessada. Houve mais carinho".

Poucos minutos depois, enquanto o palco era desmontado lá fora, ouvimos a voz do jovem Rodrigo Cotrim: "Pessoal, trouxe um bolo que fiz em casa! Venham comer!"

http://www.flur.pt/
http://www.recordstoreday.com/

Reportagem realizada no âmbito do curso de Jornalismo e Crítica Musical (ETIC).

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Last Night A DJ Saved My Life

Quando fazemos as coisas com paixão, a magia acontece. Na semana passada, fui tocado por esta lei universal, com um acontecimento que, noutra altura da minha vida, acharia inconcebível.

Resumindo a história, aceitei um desafio, trabalhei intensivamente durante 6 dias, criei um set de música e enviei-o àquela que sempre foi - e sempre será - a minha rádio de eleição. Dias depois, recebi a notícia: "vamos transmitir este Sábado". Pulei de alegria, como um puto de 6 anos.

Na meia-noite de Sábado, dia 21 de Abril (que, por coincidência, foi o Record Store Day), tive a honra de ouvir o meu trabalho transmitido na Oxigénio, no programa Last Night A DJ Saved My Life.

Foi feito com paixão. E a magia aconteceu.
Obrigado, Oxigénio.



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Mesa de Mistura | Emissão 26

segunda-feira, 19 de março de 2012


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A Hora Mágica dos Scissor Sisters

terça-feira, 13 de março de 2012


Incrível: as novidades chegam umas atrás das outras.

Embora soubesse que andavam em estúdio, foi uma surpresa dar de caras com a notícia do novo álbum dos Scissor Sisters, já com título e data marcada.

Anunciado em primeira mão na página do Facebook da banda, Magic Hour será lançado a 28 de Maio; oito dias antes será lançado o novo single Only The Horses, co-produzido por Calvin Harris.

Este é o único avanço no que toca à produção do novo trabalho do grupo de Nova Iorque. Quem sabe se, a julgar pela foto publicada na mesma página, em Fevereiro último, não haverá também um "dedinho" de Mark Ronson e até de Nile Rodgers?

Uma coisa é certa: depois do fenomenal Night Work, as expectativas são grandes.

Em estúdio: o vocalista Jake Shears (ao centro) com Mark Ronson (à dir.) e o veterano Nile Rodgers (à esq.).

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Fiona Apple, pela própria mão

segunda-feira, 12 de março de 2012

O melhor press release que vi nos últimos tempos: uma foto tirada a um pedaço de papel, escrito à mão por uma caneta púrpura. Circulou na internet, na passada 5ª feira (8 de Março).

A letra é de Fiona Apple, que anuncia assim o seu tão esperado regresso, com uma frase apenas:

The idler wheel is wiser than the driver of the screw and whipping chords will serve you more than ropes will ever do.

Nada mais que o título do (tão pacientemente esperado) novo álbum que, segundo a Pitchfork, verá a luz do dia em Junho. A mesma publicação apresentará Apple daqui a dois dias no festival South By Southwest (em Austin, Texas), num showcase que fará a estreia das novas canções.

Olhando para a frase manuscrita, é inevitável desconfiar - e desejar - o verdadeiro sucessor de When The Pawn...

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As primeiras (boas) descobertas de 2012

terça-feira, 6 de março de 2012

Já fazem música há um e dois anos, respectivamente. Mas tal como a árvore que cai na floresta, têm aquele gostinho a brand new. São, por isso, as minhas primeiras grandes descobertas deste ano.

Um é australiano e move-se nos terrenos da Electronica e do Future Beat, arados sob o calor da Soul. Outro é britânico e produz algo ainda difícil de definir - há quem lhe chame Dark Wave e Dubstep, há quem o meta nas "caixinhas" do Shoegaze e do Experimental.

Os nomes: Chet Faker e King Krule.


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Mesa de Mistura | Emissão 25

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012


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Mesa de Mistura | Emissão 24

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

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O (Meu) Melhor de 2011: 1º Lugar

sábado, 31 de dezembro de 2011


Let England Shake, PJ Harvey

Descalçou os stilettos, despiu o vestido curto, limpou o baton. Desfez-se da imagem de mulher-rock, crua e sexual, acutilante e ameaçadora.

Em 2011, o espanto tomou conta de nós: PJ Harvey emergia, transfigurada em pássaro negro, sobrevoando a Inglaterra e o passado dos homens, observando a morte e a destruição. O apocalipse não será anunciado: está escrito na nossa História, acompanha-nos desde sempre. Será esta a grande mensagem de Let England Shake, para muitos (eu incluído) considerado a grande obra-prima de PJ Harvey e o melhor álbum de 2011.

Assim como Marvin Gaye se transcendeu em What's Going On, PJ Harvey fê-lo neste empreendimento: uma meditação sobre a história e a guerra, o patriotismo e a desilusão. Sobre a humanidade. Encheu-se de coragem e enfrentou uma matéria densa, tão densa como o sangue derramado em All and Everyone ou os corpos desmembrados em The Words That Maketh Murder. Mas dela fez poesia, tão bela como nunca antes tinha feito. Dela fez música, a mais inspiradora e madura que alguma vez produziu. E renovou, em cada um de nós, a fé na criatividade humana.

Costumo pensar que já não se fazem álbuns que ultrapassam o seu tempo e ficam guardados na memória colectiva. Quero acreditar que Let England Shake é uma magnífica excepção.

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O (Meu) Melhor de 2011: 2º Lugar


James Blake, James Blake

São os sinais dos tempos: se há cinco décadas atrás, revoluções no mundo da música aconteciam ao ritmo de um punhado de anos, hoje acontecem ao minuto. A proeza, portanto, não estará na manobra revolucionária em si, mas na sua capacidade de deter - nem que por breves instantes - um mundo com déficit de atenção.

Foi isso que James Blake conseguiu fazer em 2011. Não que o seu álbum de estreia homónimo seja pioneiro de um novo estilo de criar canções, por mais que possa parecê-lo. Verdade seja dita, James Blake caminha num trilho desbravado há já uma década, na cena UK Garage do sul de Londres. Por essa altura, na linhagem do house, do drum'n'bass e do dub, nascia uma nova entidade sonora, mais texturada, melancólica e soturna: o dubstep.

O que fez de James Blake, então, um dos álbuns mais aclamados deste ano, a ponto de ser considerado "o som de 2011"?

No meu entender, terá sido a transmutação alquímica que este jovem, com então 22 anos, conseguiu operar, no refúgio da sua casa («All tracks written, performed, produced and recorded at Home»). Pois a partir dos espaços soturnos do dubstep, Blake conseguiu aceder ao espaço mais humano de todos: o da alma. Com as suas mãos, desconstruiu estruturas rítmicas, isolou elementos, separou átomos, chegou ao núcleo do amor, da solidão, do desencanto e da auto-punição. Regressou à superfície e ligou os pedaços com batidas orgânicas, ecos, loops, vocoders, um piano, a emoção antiga da soul, uma voz crua e verdadeira. Deu-lhe sangue e uma respiração irregular, tão irregular quanto as nossas emoções.

Com este álbum - ou antes, com esta manobra revolucionária - fizemos a nossa própria catarse. Blake, ao mesmo tempo, conseguiu vencer o déficit de atenção do mundo, agarrar-lhe na cabeça, olhá-lo nos olhos e dizer-lhe "Pára. Escuta. E sente". Nem que por breves instantes.

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O (Meu) Melhor de 2011: 3º Lugar


Arabian Horse, GusGus

Estou-me nas tintas se foi ignorado nas listas dos "Melhores de 2011". Talvez porque a música de dança continue a ser assunto para minorias especializadas, à margem de uma maioria (demasiado) entregue ao feitiço do "indie" e do "alternativo".

Pois com as guitarras e os revivalismos que protagonizaram o capítulo 11 do novo milénio, houve casos muito especiais a acontecer em paralelo. Um deles foi o regresso dos GusGus, conterrâneos de Björk e veteranos na cena house/electrónica.

Respeitados como "parceiros no crime" que originou a explosão do trip hop, nos meados de 90 (assinaram o emblemático Polydistortion, em 1997), os GusGus foram direccionando o seu leme, nos anos que se seguiram, para uma techno mais aguçada, dir-se-ia mesmo difícil - quantos antigos fãs não terão pensado "pronto, perderam-se...".

Pareciam estar votados ao esquecimento, quando em Maio de 2011 aconteceu o inesperado. Com um título sedutor e uma capa de execução invejável, o oitavo álbum de estúdio do colectivo parecia anunciar que, desta vez, o caso era sério. Gravado numa cottage perdida na beleza silenciosa das paisagens islandesas, Arabian Horse assinala um verdadeiro salto quântico na carreira dos GusGus: embora seguindo a linha tech-house dos últimos trabalhos, atinge um grau de maturidade e coerência sem precedentes, no seu percurso de 15 anos.

Aqui, o pulsar da dança e as atmosferas electrónicas convivem com uma qualidade lírica surpreendente, ampliada pelas performances carismáticas de Urður Hákonardóttir, Högni Elisson e David Thor Jonsson, em texturas vocais que invocam as frequências da soul e da pop.

São partes que, somadas entre si, revelam alguns dos momentos mais arrebatadores e épicos que o (agora) quinteto islandês já conseguiu. Pelo galope do caválo árabe, somos levados numa travessia pelo deserto (quem sabe, o tal limbo em que os GusGus se encontravam) e atingidos por uma tempestade de intensa criatividade e sofisticação.

Uma das mais marcantes de 2011. Sem guitarras nem revivalismos.

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Mesa de Mistura | Emissão 23

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Cai a noite, ergue-se o Solstício.
Ergue-se a Música.




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Videoclip: When I Grow Up

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Em 2009, Karin Dreijer Andersson fazia uma pausa no trajecto dos The Knife e lançava-se num projecto a solo, sob o pseudónimo Fever Ray.

O álbum de estreia homónimo abria as portas para um mundo oculto, feito de electrónicas sombrias, vozes distorcidas e imagens inquietantes. O videoclip que acompanha o segundo single é uma hábil extensão desse universo.

Em When I Grow Up, observamos o passo lento e arrepiante de uma rapariga-zombie, sobre as águas estagnadas de uma piscina. A narrativa culmina num momento sobrenatural e hipnótico, tão fascinante como poucos têm sido neste domínio, em tempos recentes.

Realizado por Martin de Thurah, conhecido também por filmar a música de James Blake, When I Grow Up foi considerado o terceiro dos 20 melhores videos de 2009, segundo a revista Spin.

Quanto a mim... dêem-me música (e respectivas imagens) com criaturas estranhas, que eu bato palmas de contente.

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50 Words For Snow (Kate Bush, 2011)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011


É sempre um acto solene, o de escutar um novo álbum de uma figura tão mítica. Não só por estarmos diante da Grande Sacerdotisa do art rock e uma das intérpretes britânicas mais marcantes dos últimos 30 anos, definidora de uma nova experiência sonora no feminino - abrindo caminho para a linhagem prosseguida por Tori Amos, Bat For Lashes ou Joanna Newsom. Mas também porque Kate Bush, afastada da órbita musical desde os anos 90, só voltou a manifestar a sua arte ao fim de 12 anos (com Aerial, em 2005), regressando ao silêncio desde então.

Eis que o espírito distante ressurge novamente, com a névoa de Novembro, para nos contar sete histórias de Inverno, no novíssimo 50 Words For Snow.

Tudo começa com um floco de neve a cair. É o seu próprio filho que, no primeiro conto, personifica a leveza, a lenta aproximação ao mundo cá em baixo. "The world is so loud / keep falling / I'll find you", responde Kate, uma mão maternal estendida no ar, a outra perpetuando uma sequência minimal e hipnotizante de piano.

Em Lake Tahoe, a voz revela-se, sólida e madura (tão longe do registo que a notabilizou em Wuthering Heights), para dar corpo ao fantasma da mulher que habita o lago onde morreu afogada, à procura do seu cão. Um reencontro com a Kate Bush primordial, bela e fantasmagórica, prolongado em Misty, o conto seguinte. Não sabemos se o seu encontro amoroso/sobrenatural com um boneco de neve é sonho ou realidade, mas sentimos a paixão, a ardência, o abandono, a angústia. Piano, baixo, voz e violinos entretecem-se numa viagem envolvente de 13 minutos, pondo a descoberto a sensualidade que sempre permeou a expressão da intérprete.

Wild Man é magnífico e cinemático: uma travessia no gelo do Tibete, um grupo de exploradores, o apelo da narradora à abominável criatura perseguida ("Run away, run away"), por quem sente compaixão ("You sound lonely").

Na história seguinte, Elton John junta-se para um dueto, cantando um amor que desafia os limites do tempo, num anseio de imortalidade. Duas interpretações sinceras que precedem o exercício experimental da faixa-título, onde as 50 formas de designar a neve se desdobram sobre a cadência ácida do baixo, da bateria e da guitarra.

Por fim, a graciosidade: em Among Angels, a voz e o piano de Kate são sublimados por arranjos orquestrais. Um sinal de conforto ("I might know what you mean when you say you fall apart") e uma promessa ("I can see angels standing around you") aquecem o coração, no final desta travessia.

50 Words For Snow é um álbum atmosférico, contemplativo, cuja beleza se deixa descobrir a cada audição. Gélido, mas com a mesma dimensão emocional de sempre. A neve vai derretendo, até que o espírito distante se retira, por fim.

Confortados com a visita, esperamos pela próxima aparição de Kate Bush, com a mesma solenidade e reverência.

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Mesa de Mistura | Emissão 22

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011


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Videoclip: I've Got You Under My Skin

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Passaram duas décadas desde que Jean-Baptiste Mondino realizou o brilhante vídeo para a não menos brilhante reinvenção do clássico de Cole Porter, I've Got You Under My Skin, interpretado por Neneh Cherry.

No Dia Mundial de Luta Contra a Sida, recordo aqui um dos manifestos artísticos mais poderosos desta causa. O som, a palavra e a imagem falam por si.


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O mítico Hot Clube está de volta

segunda-feira, 28 de novembro de 2011


O Hot Clube de Portugal (HCP) reabrirá as suas portas a 21 de Dezembro, com espaço renovado na Praça da Alegria, dois anos depois de ter sido destruído por um incêndio. O novo Hot Clube ficará instalado num edifício vizinho, nos números 47 a 49.

Segundo a presidente do conselho director, Inês Cunha, a reabertura será assinalada com três dias de concertos, a decorrer entre 21 e 23 de Dezembro, todos de entrada gratuita.

Estão previstas actuações "só com formações do Hot Clube" - entre as quais a histórica formação do Quarteto do Hot Clube e a Big Band do HCP - assim como jam sessions com alunos da escola do clube.

O Hot Clube de Portugal foi fundado em 1948 e é o mais antigo clube de jazz em Portugal. Casa mítica da noite lisboeta, funcionava na cave do número 39, na Praça da Alegria. A 22 de Dezembro de 2009 foi destruído por um incêndio, que danificou parte do espólio e obrigou ao cancelamento de toda a programação.

Dois anos depois, volta a trazer os sons vivos do Jazz à cidade.

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Medúlla (Björk, 2004)


É uma das memórias musicais mais fortes da minha vida em Londres - associo este álbum ao frio da cidade e à procura de um espaço interior para a catarse. Hoje, é um dos meus álbuns favoritos de sempre. Peguei nele para um exercício de crítica, no âmbito do curso que estou a tirar. Aqui vai:

Um dos nomes mais inventivos e versáteis no mainstream pós-90, ela já foi house e techno, punk e rock alternativo, jazz e electrónica, folk e até música de câmara.

A meio do percurso, Björk deixou que o impulso experimentalista a levasse ainda mais longe: despiu-se de géneros, abdicou de intrumentos e maquinarias e fez da voz a matéria-prima, para criar um dos álbuns mais desafiadores e sublimes da sua carreira. Editado em 2004, Medúlla é mais que um conjunto de canções a cappella; é um exercício fascinante de construções sonoras, feitas a partir do instrumento supremo.

O ponto de partida terá sido o antecessor Vespertine (2001), que marcou a viragem para um estado menos expansivo e dançável, mais introspectivo e orgânico. Medúlla representa o culminar dessa rota, o encontro com a matéria primordial, com "um espírito antigo, um espírito que sobrevive". É um álbum sombrio (tenebroso até, em Where Is The Line) e visceral (surpreendem, os sons guturais e quase animalescos de Ancestors), mas também político (I need a shelter to build an altar away / From all Osamas and Bushes, canta ela em "Mouth's Cradle"), profundamente poético (Oceania, um dos momentos mais altos) e celebratório (o tom final, em Triumph of a Heart).

Produzido por Björk e Mark Bell, Medúlla conta com os intrumentos vocais de Mark Patton e Robert Wyatt, o beatboxing de Rahzel, Shlomo e Dokaka, os arranjos corais do The Icelandic Choir e os cânticos guturais inuítes de Tanya Tagaq. Várias camadas que se cruzam e são ancoradas pela voz, em si mesma tão peculiar, de Björk Gudmundsdóttir.

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