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Obrigado, Lamb

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Assim que me sentei na cadeira B4 do Grande Auditório e olhei para o palco, caí na real: daí a uma hora, os Lamb iam estar ali, mesmo à minha frente. Fazia agora 10 anos que os vira pela última vez. O fim anunciado em 2004 punha também um ponto final na expectativa de revê-los. A experiência de um concerto dos Lamb era, assim, arrumada no ficheiro das memórias que não se esquecem.

Mas o Universo tem destas coisas: quando não anseias por algo, esse algo acontece. E ali estava eu, contemplando a calma maré de pessoas que iam chegando ao Grande Auditório do CCB, tomando os seus lugares - muitas delas, pensava eu, partilhando da mesma expectativa.

Comprei o bilhete logo em Abril e garanti um lugar quase perfeito: 1ª plateia, 2ª fila, ao centro. A noite prometia.


Depois de aproveitar os minutos a absorver cada detalhe do palco - do microfone, ao centro, ao sintetizador à minha esquerda, do familiar contrabaixo digno de uma mostra de design (que saudades!) à imagem projectada no ecrã (liam-se as letras L, A, M e B, nada mais) - as luzes apagaram-se. Começava a primeira parte, Jay Leighton e uma guitarra, canções simples e melódicas. Confesso que estava impaciente e desejava que o descontraído Jay se despachasse.


Mais alguns minutos de espera e, por fim, o acontecimento. As luzes baixaram, entrou Jon Thorne - em palco, os Lamb sempre foram um trio - e o aplauso aumentou de intensidade, quando avistámos Lou (mais bonita que nunca) e Andy. Os primeiros acordes de Another Language davam início ao (já) emocionante reencontro com Lisboa. Era o novíssimo som de 2011 a saudar-nos - melhor ainda, o novo som que recupera a energia original. Tal como na Aula Magna, dei por mim a lutar contra o estar sentado, o corpo já baloiçava de um lado para o outro, braços e cabeça tentavam extravasar a primeira injecção de adrenalina.




A situação piorou com o clássico Little Things: entrávamos agora em território explosivo, Andy a transformar-se naquele dínamo de energia, eu já a cantar alto e bom som. Como se não bastasse, entrou Lusty e tive vontade de rebentar: é a minha favorita de sempre, para além de ter adquirido toda uma nova dimensão, este ano. Levantei voo, pensei nos tempos áureos da Xis - foi com aquele som que os descobri - e nos novos horizontes do Mesa de Mistura.

A cadeira começava a ser incomportável e, por aquela altura, eu não era o único a senti-lo. Até que, também como na Aula Magna, Lou veio finalmente ao nosso socorro: This one's for all of you to dance, so get up off your seats! Em menos de um segundo, o CCB perdeu a pose e soltou-se com a pujança de Strong The Root e a frescura de Existential Itch. Toda a gente de pé, a dançar.


À medida que a noite avançava, as emoções iam sendo mais nítidas, mais intensas: a névoa do tempo (bolas, há uma década que eu não os via!) dissipava-se cada vez mais, tudo voltava a ser tão familiar: Lou de voz doce, postura serena e sorriso genuíno, Andy totalmente entregue ao momento, ao ritmo e a nós, correndo entre a máquina e a percussão como um puto de 5 anos, puxando pelo público (que saudades da sua comunicação e empatia), pedindo aos técnicos para ligarem as luzes, I wanna see you beautiful faces here tonight! A união dos opostos numa síntese magnífica, o Yin e o Yang, a Terra e o Fogo, a sereia e o cavalo selvagem. Os meus eternos Lamb.


O concerto seguiu com a sensualidade de She Walks... e Gabriel. Será a música que menos ouço dos Lamb (o manistream encarregou-se de desgastá-lo), mas foi certamente um dos momentos altos da noite. Ao vivo, é impossível não nos arrepiarmos. No final, Andy confidenciou-nos algo que me deixou incrédulo: Enquanto tocávamos este tema vieram-me as lágrimas aos olhos, pois apercebi-me que a vida é demasiado curta e acabámos de partilhar um belo momento. Sem palavras.

Da comoção, o retorno à sensualidade com Butterly Effect (brutal! brutal!) e o belíssimo Wise Enough, um apelo à união e ao facto de só estarmos aqui, nesta vida, uma vez. Seguiu-se um momento inédito: Lou de guitarra em punho, a rasgar com o fe-no-me-nal Build a Fire, Lamb em puro estado rock, eu ganhava molas nos pés, o meu corpo era a própria batida.



Por fim... Górecki. Difícil de reproduzir via palavra. O CCB ao rubro, cantando em uníssono, a união total, pessoas emocionadas, indescritível. Como se não bastasse, preparando-se para aquela sequência brutal de percussão, Andy pegou num tambor e correu para a frente do palco... mesmo à nossa frente. Luzes acesas para que ele nos visse, um solo impressionante de beats, eu seguia os seus movimentos com os braços, usando a cadeira à minha frente como o meu tambor. No meio daquela erupção rítmica, por breves instantes, ele fixou o olhar em mim, ele com o seu tambor, eu com a minha cadeira, ele a lançar-me um sorriso cúmplice (estou a ver o que estás a fazer), eu a sorrir-lhe de volta. A minha jam session de breves segundos com Andy Barlow. Nunca mais me vou esquecer disto.

Górecki terminava e a salva de palmas não podia ser maior. O sentimento de gratidão atravessava a sala. Eu só gritava Thank you! Eles, visivelmente emocionados, agradeciam-nos também. Andy pegou nas suas baquetas e ofereceu-as a duas pessoas no público. E saíam de cena. O Grande Auditório estava em êxtase. Não conseguíamos deixar de aplaudir, de chamar pelo encore.

Claro, eles voltaram. E ofereceram-nos o eterno What Sound. Que som, meu Deus, que som! No final, Lou juntou-se a Andy para um dueto de percussão, era a celebração da essência dos Lamb: the beats!


Andy aproveitou o momento para novo agradecimento e novo gesto inesperado: pegou numa máquina fotográfica, empoleirou-se numa coluna e tirou-nos uma fotografia! Todos de braço no ar, sorrisos rasgados, que mais poderia acontecer? Andy olhou para a máquina e disse: Esta não saiu muito bem... vá, vamos tirar outra! Estávamos rendidos, absolutamente rendidos àquele gajo.

De seguida, Lou pediu o nosso silêncio, a nossa atenção. Ia contar-nos uma história. Num gesto de reverência e respeito, acalmámo-nos, o silêncio absoluto. One day, something so magical fell from the sky... Céus, eu estava a ouvir The Spectacle, tão recente mas logo eleita uma das minhas músicas favoritas dos Lamb. Durante 4 minutos, o meu corpo era trespassado por arrepios, um atrás do outro. A performance de Lou foi assombrosa.


O final estava próximo e recebemos nova ordem: All you guys, get close to us! Tal como no início, em menos de um segundo, estávamos a saltar as cadeiras, como que puxados por uma força invisível, mesmo para junto do palco. Lou pegava novamente na guitarra e adivinhava-se algo grandioso: o mítico TransFattyAcid. Só quem esteve lá, consegue perceber o que foi aquilo. O CCB transformado em rave party, a explosão final de energia, o supremo regresso à origem dos Lamb, o passado tornado presente, a celebração total, o clímax. A despedida.


As luzes acenderam e sabíamos que o espectáculo era dado por terminado - de vez. Mas o êxtase geral não deixava o público parar de bater palmas. Algumas pessoas começavam a sair, mas a grande maioria (e digo "grande", mesmo) não se demovia de chamá-los. A noite tinha sido boa demais para terminar ali. Um técnico espreitou para o palco, as palmas cresceram, seriam eles? Não conseguíamos sair dali, ponto final. A música de fundo - que convida as pessoas a sair - começou a tocar, mas em vez de saírmos, acompanhámos o ritmo com as palmas. Olhei para a minha volta e as pessoas sorriam, dançavam. Estávamos felizes. Que noite.

O técnico principal entrou no palco, ainda achámos que o impossível ia acontecer, mas ele gesticulou um Não... sorry folks, vamos é começar a desmontar. Não senti nem um pingo de descontentamento, por termos falhado a proeza. Muito pelo contrário, subi o corredor do Grande Auditório, em direcção à saída, a sentir-me cheio.

Lá fora, a noite não podia estar mais calma, a temperatura perfeita. Regressei a casa com a sensação de que tinha vivido uma experiência... de regresso a Casa.

Thank you ever so much, Lou. Thank you ever so much, Andy.


Photo credits: Imagem do Som, Ana Gonçalves, Manuel Lino.

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Banda de culto

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Posso afirmá-lo com propriedade: se há projecto que defino como "banda de culto", esse dá pelo nome de Lamb.

Descobri-os em 1996, nos dias da mítica XFM, e foi ao som de Lusty e Cotton Wool que se deu a tal alquimia espontânea. Um processo que acontecia entre tantos outros na imensa minoria lisboeta que, tal como a Xis, elevava a dupla de Manchester a estatuto de banda-fétiche.

Lembro-me de ouvir o primeiro álbum vezes sem conta e imaginar como seria a força daquele som em palco. O destino tratou disso e, depois de ter perdido a primeira visita a Lisboa (em 1997), não me passaria pela cabeça perder a segunda vez.


A noite de 24 de Novembro de 1999 ficaria para sempre como um dos episódios mais intimistas, na minha história como espectador de concertos. Não só pelo espectáculo em si, mas por ter sido o primeiro concerto a que assisti sozinho, nos meus 22 anos. Naquela noite, parecia não haver mais nada: só eu e eles. Só eu e a magia daquela música, agora materializada, só eu e a energia incrível de Andy Barlow (nunca tinha visto nada assim), só eu e a doçura de Lou Rhodes. Aí, tive noção de que os Lamb eram especiais na minha vida. Lembro-me de estar na estação da Cidade Universitária, a caminho de casa, e sentir-me atordoado com tudo o que ali se passara, na Aula Magna.

"Irrepetível", pensava eu. Pois estava enganado. Dois anos e uma semana depois, a 4 de Dezembro de 2001, naquele mesmíssimo lugar, Lou e Andy traziam-nos What Sound. Se a experiência anterior marcou-me pelo carácter intimista, esta impressionou pelo oposto: perante uma sala cheia, os Lamb conheciam a apoteose, a Aula Magna rendia-se, algo mágico - e raro - acontecia: a fusão total entre músicos, música e público. Uma experiência que ficaria para sempre na memória de todos os que ali estiveram.


A relação dos Lamb com Portugal era um dado assente, com novas visitas a Vilar de Mouros (2002) e ao Pavilhão Atlântico (2003). «As pessoas em Portugal sentem mesmo a música. Há uma sinergia, uma química entre nós e Portugal. Há algo de especial que acontece (...), algo no coração dos portugueses e no coração dos Lamb que nos une», declarou Lou Rhodes, por ocasião da visita seguinte, para um espectáculo na Queima das Fitas do Porto, em Maio de 2004. A minha ausência do País impediu-me de assistir àquele que, inesperadamente, viria a ser conhecido como o último concerto da dupla no nosso país. Em Setembro, era anunciado o fim do projecto. Uma imensa minoria ficava órfã.

Sete anos depois, o inesperado voltava a acontecer: os Lamb regressavam à música... e a Portugal.

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Em discurso directo na LeCool: Lamb

quinta-feira, 9 de junho de 2011


"Lou, dá-me uma boa razão por que não deveríamos gravar um novo álbum", disse Andy Barlow ao telefone. Do outro lado, Lou Rhodes não conseguiu responder e eis o inesperado: os Lamb estão de regresso, sete anos depois da notícia que entristeceu uma imensa minoria. Quem tem boa memória, sabe como eles foram fundamentais na alvorada do trip hop (esqueçam Gabriel, ouçam Cotton Wool ou Alien) e não esquece os míticos concertos em Portugal. Eles também não nos esqueceram e vêm até Lisboa para apresentar "5" no CCB. Como se não bastasse, nessa tarde estarão na Fnac do Colombo, para um generosíssimo showcase. Foram os Lamb que me deram a conhecer um admirável mundo (outrora novo) onde o breakbeat, o drum'n'bass e o dub se fundem com o jazz e o acústico, em harmonias sublimes. Devo-lhes a minha presença, neste reencontro.

Por: Rui Clemente

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Lamb: o regresso ao estúdio... e a Portugal.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

É uma das grandes surpresas de 2011. Sete anos depois de terem anunciado o fim, os Lamb estão de volta!

Louise Rhodes relata-nos o momento que deu novo fôlego ao projecto: No início deste ano [2010], o Andy e eu conversávamos ao telefone, a pôr as conversas em dia. Ele falava-me do quanto sentia falta do que os Lamb tinham sido, um dia (...) e disse-me: "Lou, Dá-me uma boa razão para não fazermos mais um álbum dos Lamb". Não consegui encontrar nenhuma.

Ao fim de 5 meses em estúdio, 5 (nome que alude ao quinto álbum de estudo do duo de Manchester) está prestes a ver a luz do dia. Será a 5 do 5.

As boas notícias não acabam aqui: Lou Rhodes e Andy Barlow preparam-se para apresentar as canções do novo álbum, numa digressão que terá início a 30 de Abril (no Reino Unido) e que em Junho passará por Portugal. Eis as datas:

10 de Junho - Pavilhão do Arade, Lagoa / Portimão
11 de Junho - Grande Auditório do CCB, Lisboa
12 de Junho - Coliseu do Porto

Este é mesmo um grande ano para a música.

Site: LambOfficial.com

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Álbum | "Lamb", Lamb

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Lamb
Lamb
1996
Mercury / Universal
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Vieram ter comigo na mesma onda sonora que os Massive Attack e os Portishead. Lembro-me de ouvir Lusty - faixa de abertura do álbum de estreia dos Lamb - na X e sentir-me incrivelmente atraído por uma linguagem tão inovadora e inteligente.

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Tinha que saber a quem pertencia aquele som. Assim que apanhei o nome, voei até à (já extinta) Virgin Megastore dos Restauradores - onde, pela primeira vez em Lisboa, podíamos ouvir os CDs sem ter de os comprar. E quando ouvi Lamb, descobri todo um admirável mundo novo.



Aqui, a dupla de Manchester conseguiu elevar o trip hop a uma dimensão de Beleza sem precedentes. E tudo estava em sintonia: a força agressiva e fria das batidas drum n' bass, o quente dos sons jazzísticos, a entrega emocional das letras, o corpo orgânico do violino, do contrabaixo, da voz inconfundível de Louise Rhodes.

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«An appreciation of contradiction», afirmam Rhodes e Barlow no artwork do álbum. E é isso mesmo. Do recolhimento (Feela) à expansão (God Bless), do minimal (Cotton Wool) ao majestoso (Górecki), tudo é arrebatador.

Não hesitei por um segundo e trouxe o álbum para casa. Logo adquiriu o estatuto de Um Dos Meus Álbums Favoritos de Sempre. E continuará sempre a sê-lo.

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